Lampião esteve em Capela (SE)
duas vezes. A primeira foi em novembro de 1929. A visita foi pacífica.
A segunda foi em outubro de
1930, e aí o pau comeu, e ele desistiu de entrar na cidade.
Transcrevo, a seguir, trechos do meu livro Lampião
– a Raposa das Caatingas, em
que faço a descrição desses episódios. Faço essa transcrição com o propósito
de assim contribuir para o registro desse fato da história do cangaço, porém
lembrando que é proibida a sua reprodução integral ou parcial sem a autorização
prévia do autor.
A primeira passagem de
Lampião por Capela é contada no capítulo 109 de Lampião – a Raposa das Caatingas. Lampião ia encontrar-se com
Eronides de Carvalho, oficial do Exército que viria a ser governador de
Sergipe. Segue-se a transcrição literal desse fato:
“LAMPIÃO EM DORES E CAPELA
Primeira passagem por Dores
Refeito daquela provação, Lampião desceu para Sergipe,
passando novamente por Carira na manhã do dia 24 de novembro de 1929, um
domingo. Demorou algumas horas no povoado, fez compras nas bodegas de Zé
Martins e Balbino e rompeu na direção da Cotinguiba.
Na tarde da segunda-feira,
dia 25, acompanhado de 14 cangaceiros, o
Capitão Virgulino chegou a Nossa Senhora das Dores, dirigindo-se diretamente à
delegacia de polícia. O delegado recebeu pacificamente os visitantes. Lampião
mandou cortar o fio do telégrafo, para evitar que fossem alertadas as
autoridades de outras localidades. Mandou avisar ao povo que tivesse calma, pois
não faria mal a ninguém. Pediu ao intendente (prefeito), Manoel Leônidas do
Bonfim, que fizesse uma coleta de dinheiro com os moradores ricos da cidade. O
delegado ajudou o intendente a fazer a arrecadação. Conseguiram juntar quatro
contos e quinhentos mil-réis. Os cangaceiros deram uma volta pela cidade,
respeitosamente, fizeram compras, comeram, beberam, pagando tudo. Circulou o
boato de que Lampião ia pernoitar em Dores e pretendia promover um baile. Os
pais de família ficaram alarmados. O escrivão, conceituado cidadão chamado
Petronílio de Menezes Cotias, temendo por suas cinco filhas jovens, foi falar
pessoalmente com o Capitão Virgulino. O cangaceiro tranquilizou-o:
– Nun se avexe não, seu Cutia... Cuma eu já diche pro
delegado, ninguém pricisa se preocupá cum nada. Tou aqui de passage. Vim a
Segipe foi pra fazê amigos.
Ao anoitecer, tomou emprestados 4 automóveis e rumou
para Capela, distante cerca de 3 léguas. Lampião viajou na fubica do
comerciante e industrial Otacílio Menezes – dirigida pelo próprio Otacílio. No
caminho, foram conversando prazenteiramente, como velhos conhecidos. No banco traseiro iam Ezequiel e Virgínio, sempre atentos.
Lampião visita
Capela, a Princesa dos Tabuleiros
Já chegando a Capela, num sítio denominado Sobradinho,
de seu Xixiu, Lampião mandou parar o automóvel e enviou Otacílio à cidade para
avisar ao intendente que queria conversar com ele.
O intendente, Antão Correia de Andrade, recebeu o
recado por volta das 7 horas da noite. Consultou o delegado, para saber se era
possível resistir. O delegado foi claro:
– Tá doido, Correinha?! Nem me fale uma coisa dessa!
Eu só tou cum um cabo e três sordado, purque os outo foro cum o tenente Elesbão
procurá uns bandido no sertão. Além disso, esses sordado nun sabe brigá, só
serve pra prendê e dá pisa im cabra safado...
– Tá bem – concordou o intendente. – Já qui nun tenho
cumo dexá de atendê o pidido do Home, vou buscá-lo. Dê orde pra qui os sordado
nun se meta.
Não foi preciso dar a ordem, pois a essa altura o
destacamento já tinha dado no pé.
Uma hora depois, o Capitão Virgulino Ferreira, com o
intendente à sua esquerda e tendo atrás de si sua estranha comitiva, entrou
tranquilamente na cidade. Por onde passava, acenava para o povo, assegurando
que não iria fazer mal a ninguém:
– É Lampião qui tá
chegano... Amano, gozano e quereno bem...
Na Esquina do Padre, onde ficava a casa paroquial, os
cangaceiros dividiram-se em dois grupos: uns foram com Arvoredo montar guarda
no posto do telefone na Rua Pé de Banco e os outros acompanharam Lampião, que
pediu ao intendente para levá-lo à agência do telégrafo.
Como o telegrafista tinha ido ao cinema, Lampião deixou um cabra
vigiando a agência e foi procurar o operador do telégrafo no Cine-Teatro
Capela.
Naquela época os filmes eram “mudos”, e por isso
durante a exibição alguns músicos tocavam modinhas para entreter a assistência.
Em Capela a orquestra era um piano, uma rabeca e uma sanfona. Ouvia-se a valsa Abismo de Rosas.
Quando os cangaceiros entraram no cinema, houve um rebuliço medonho. Os músicos pararam de tocar. As luzes
acenderam-se. Interrompeu-se a projeção do filme. O cangaceiro Virgínio, vulgo
Moderno, cunhado de Lampião, mandou que todos ficassem quietos, avisando que
ninguém podia sair. Algumas pessoas conseguiram escapulir, entre elas o juiz,
Dr. Otávio Teles de Almeida, que, esgueirando-se de quatro pés entre as
cadeiras, alcançou uma portinhola que havia por detrás da tela, pulou o muro do
cinema e foi se esconder no convento das freiras. Depois que foi localizado o
telegrafista, Lampião mandou que apagassem as luzes e continuassem a passar a
fita. O filme era O Anjo das
Ruas. Lampião não viu graça nenhuma naquilo e saiu do cinema. Preferia
tratar de negócios.
Lá fora, chamou Moderno e mandou que fosse procurar o
delegado de polícia. Perguntou ao telegrafista:
– Cuma é o seu nome, cabrinha?
– Zózimo Lima – respondeu o rapaz.
– Quero falá ũas coisa cum você, Zosmo. Cunvessa de
home pra home. Venha cá.
Afastou-se para o lado, e por algum tempo conversou a
sós com o telegrafista. Zózimo Lima nunca revelou o que Lampião queria. Apenas
contava que Lampião lhe recomendou que não desse notícia dele. Essa explicação
não convence, pois se fosse para isso não precisava falar reservadamente. É
provável que Lampião tenha pedido a Zózimo a relação dos homens ricos de Capela.
Daí a pouco, Moderno retornou com o delegado, major
Pedro Rocha, um homem de mais de 80 anos, remanescente da Guarda Nacional.
Estava um pouco trêmulo, mas esforçava-se para se manter altivo. Lampião,
respeitosamente, apertou a mão dele, tranquilizando-o:
– Fique sem sobrosso,
colega. Nun vai tê arteração.
O respeitável major engoliu em seco. Nunca lhe
passara pela cabeça ser “colega” de um cangaceiro.
Lampião chamou o intendente:
– Seu Antão, tou sabeno qui o sinhô é irmão do chefe
de puliça de Segipe.
O intendente confirmou:
– É verdade, Capitão. Sou irmão do chefe de polícia
estadual, Dr. Heribaldo Dantas Vieira.
– Será qui eu posso falá cum ele no telefone?
– Se o sinhô qué... – concordou o intendente.
Foram ao posto telefônico, que continuava sob a
vigilância de Arvoredo. Lampião não conseguiu telefonar para o chefe de polícia
porque a ligação para Aracaju dependia de conexões com postos telefônicos de
outras cidades, que àquela hora já tinham encerrado os trabalhos. Mesmo assim,
Lampião deu 50 mil-réis de gorjeta à telefonista, dona Emília Sousa, e fez um
pedido:
– Me faça um favô, moça: amanhã, telefone pro Doutô
Heribardo Viera e diga qui eu nun tenho nada contra ele, quiria falá cum ele só
pra dizê qui me trate bem, cumo tou tratano o irmão dele.
Sabendo que estava para chegar um trem procedente da
capital, Lampião foi à estação ferroviária, na Rua São Pedro, aguardar a
chegada do comboio. Por precaução, levou também o intendente, o delegado e o
telegrafista.
Não custou muito, ouviu-se o apito da locomotiva.
Quando o trem parou, soltando uma fumaça espessa que enegreceu tudo, alguns
passageiros começaram a descer, sendo imediatamente abordados pelos
cangaceiros. Outros, percebendo o que estava acontecendo, entraram em desespero
e começaram a pular pelas janelas, do outro lado da plataforma, num desvario
indescritível. Um dos que desembarcaram normalmente era um soldado chamado
Gilberto Santos. Lampião segurou-o pela túnica, arrebatou-lhe o fuzil e
perguntou:
– Macaco, você é de onde? Baiano ou segipano?
– Sou de Araca...caju... – respondeu o soldado,
tremendo.
– Tu é de sorte, visse? Se tu fosse da puliça da Bahia
eu ia tirar o teu couro agora mermo, cê nun ia dá nem um pio!
Examinou o fuzil do soldado com ares de entendido,
tirou as balas e devolveu-lhe a arma, dizendo:
– Home, esse fuzi seu é mais véio do qui a Lua... Andá
cum isso aí é o mermo qui andá cum um cacete... Vá simbora.
O soldado ia saindo, quando Lampião o chamou de volta:
– Você, assim cum essa farda, pode se incontrá cum
meus minino e vão querê fazê argũa brincadera. – Chamou um cangaceiro e
ordenou: – Acumpãe esse macaco até o quarté.
Os cangaceiros tinham prendido o chefe da estação.
Virgulino ordenou que lhe fosse entregue a renda.
Conforme fazia nas localidades por onde andava, o
Capitão avisou ao intendente que ele devia conseguir alguma contribuição dos
homens ricos da cidade. Pediu inicialmente 20 contos
de réis. Em face das ponderações do intendente, que explicou estar a
região atravessando três anos de seca, sendo difícil juntar tanto dinheiro,
Lampião reduziu a exigência para 6 contos, dizendo que sabia o que representam
as secas, pois era filho do sertão de Pernambuco. O próprio delegado de
polícia, Pedro Rocha, foi encarregado de fazer a coleta entre os moradores de
maiores posses. Quando o delegado chegou com o dinheiro arrecadado – só
conseguira 5 contos –, Lampião mandou que fosse entregue a Moderno. O cangaceiro
contou as notas por alto e meteu o pacote no bornal.
Depois dos negócios, era chegada a hora de se
divertir. Sempre acompanhado do telegrafista, por recear que ele tivesse algum
meio de se comunicar com outras localidades, apesar do adiantado da hora,
Lampião deu um giro pela cidade. Pediu que abrissem algumas lojas, pois os
meninos queriam fazer compras. E de fato os cangaceiros compraram muitas
coisas, inclusive joias, nas casas dos ourives Alfredo Assis e Euclides Silva.
Na Casa Stella, estabelecimento comercial de Jackson
Alves de Carvalho, na Praça do Mercado, Lampião viu uma capa de chuva de
gabardina e um parabelo. O parabelo era de uso pessoal do comerciante. A capa
de borracha, também – o avô de Jackson criara um rapaz que se tornou suboficial da Marinha, e a capa era um presente que
Jackson recebera do “tio”. Lampião disse que ia levar a capa e o parabelo.
Perguntou quanto devia.
– Nada não, Capitão, eu...
– Não sinhô, seu Jaque – contrapôs o cangaceiro –, a
um home de sua marca nun se dá prijuízo. – Meteu a mão no bolso, tirou 500 mil-réis: – Tou lhe pagano.
O comerciante, em agradecimento, presenteou o cangaceiro
com um livrinho intitulado Vida de Jesus,
da escritora adventista norte-americana Ellen G. White, apondo na folha de
rosto a seguinte dedicatória: “Ao intrépido forasteiro Capitão Virgulino Ferreira
da Silva, vulgo Lampião, com um abraço de Jackson Alves de Carvalho. Capela, 25
de novembro de 1929” .
Noutra loja, Lampião comprou uma lanterna de pilhas.
Pagou sem pechinchar.
Do mesmo modo que acontecera em Carira e Poço Redondo,
passado o susto inicial, aos poucos foi-se espalhando a notícia de que não
havia perigo, Lampião não ofendia ninguém. Então muita gente foi chegando para
ver de perto o Rei do Cangaço. Por onde Lampião e seus cabras passavam eram
acompanhados por muitos moradores da cidade. Custava acreditar que aqueles eram
os tão temidos cangaceiros de tantas histórias tenebrosas que corriam de boca
em boca nos sertões.
Na parede do salão de sinuca de Manoel Pestinha, na
Praça do Mercado, Lampião escreveu com o bastonete de giz de marcar os pontos
do jogo:
“Capela – 25-11-29
Salvi
Eu capm. Virgulino Ferreira
Lampeão
Deixo Esta Lça. para o officiá qui aqui parçar em minha priciguição, apois tenho gosto que Voceis me
prisigam. Discurpe as letra qui sou um bandido cumo voceis me chama pois eu não
mereço. Bandido e voceis que andam robando e deflorando as famia aleia porem eu
não tenho este custume todos me desculpe a gente a quem me odiar. Aceite Lça.
do meu irmão Ezequiel Vurgo Ponto Fino e de meu cunhado Virginio Vurgo Moderno.”
Até o vigário de Capela, cônego José da Mota Cabral,
conhecido como Padre Juca, veio falar com Lampião. Alguns cangaceiros pediram-lhe
a bênção. O padre aconselhou-os a deixar a vida de crime.
Lampião pediu ao telegrafista para levá-lo a uma
pensão, pois os meninos estavam com fome. O telegrafista levou-os à Pensão
Comercial, de dona Irinéia, uma senhora gorda, baixa, conversadeira. Enquanto
preparava a comida, dona Irinéia não calava a boca:
– Ói, seu Capitão, eu tenho galinha, frango, porco,
carne de porco, galinha, frango, porco...
Lampião impacientou-se:
– Mĩa sinhora, se acalme!... Desse jeito vai até passá
a mĩa fome!...
Foi o telegrafista quem provou a comida antes que o
grupo se servisse, pois Lampião receava que pusessem veneno nos alimentos. Não
satisfeito com essa precaução, o cangaceiro mergulhou uma colher de prata na
comida, meio que considerava seguro para detectar a presença de veneno.
Depois do jantar, os cangaceiros passaram perfume no
corpo e foram passear de automóvel. Por volta da meia-noite, dirigiram-se para
o cabaré, que chamavam de “distrito”, na Rua Coelho Campos, e ali foram se
revezando: enquanto uns montavam guarda, os outros se divertiam com as
mulheres. Lampião levou para o quarto uma mulata chamada Enedina. Ela quis
ajudá-lo a despir-se. Lampião disse:
– Nun pegue im nada.
O cangaceiro encostou o fuzil na parede, e logo estava
pronto para a função – de roupa e tudo, não tirou nem as alpercatas.
Durante o procedimento, Moderno ficou na esquina, a
uns 10 metros ,
e Arvoredo foi vigiar o fundo da casa. Enedina gostou do chamego. Perguntou:
– O sinhô tem mulé?
– Não – respondeu Virgulino. – Home qui veve nesta
vida nun pode tê pensão.
Enedina ficou rica – ganhou 70 mil-réis!
Às 3 horas da madrugada, Lampião soprou o apito para
reunir o grupo. Os cangaceiros entraram nos automóveis que tinham sido
requisitados em Dores. Lampião apertou a mão do intendente, acenou para o delegado
e os demais, e disse:
– Adeus! Nun aperto a mão de todos pra nun gastá...
Satisfeito com o próprio gracejo, entrou no carro.
O intendente não acreditava que estivesse livre do
problema.
Na fazenda Pedras, Lampião mandou parar os veículos.
Despediu-se de Otacílio:
– Vamo ficá aqui, seu Otacilo. Tou ino pra Aquidabã. Até mais vê, e munto obrigado.
Quando os automóveis se foram, o bando tomou o rumo de Canhoba.
No dia seguinte, o chefe de polícia de Sergipe fez
seguir para Capela em trem especial um contingente de 50 praças sob o comando
do coronel Severino Gonçalves.”
* * *
Lampião
Antigo cinema de Capela
Estação do trem
Zózimo Lima
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
A segunda passagem de Lampião por Capela é contada no
capítulo 127 de Lampião – a Raposa das
Caatingas, em que abordo uma incursão feita pelo cangaceiro por Canhoba,
Aquidabã, Dores e Simão Dias (antiga Anápolis). Reproduzo a seguir o episódio
ocorrido em Capela:
"Tiroteio em Capela
Lampião sentia-se tapeado
pelos sergipanos. Até então, em suas incursões por Sergipe ele se limitara a
pedir dinheiro, montarias e certos favores. Não permitia que seus homens
maltratassem ninguém. Na primeira vez em que esteve em Capela, foi recebido
pelo prefeito (intendente), conversou com o padre, teve até tempo de namorar
certa criatura, mas foi só dar as costas todo mundo virou valentão. Nos jornais
ele era chamado de tudo o que havia de ruim. Estava disposto a dar uma lição
naquela terrinha de gente ingrata.
No início da tarde do dia 15
de outubro de 1930, o bando passou pelo povoado Outeiro, onde o fazendeiro Alvino Ferreira e sua família foram submetidos a maus-tratos,
sendo por fim incendiado o seu paiol de algodão.
Por volta das 3 horas,
Lampião chegou à fazenda de Félix da Mota Cabral, nos arredores de Capela. O
fazendeiro era irmão do vigário, José da Mota Cabral (Padre Juca). No momento,
Félix Cabral estava vendendo gado a uns marchantes. Os cangaceiros
apoderaram-se dos cavalos dos marchantes. Dali, parte do bando seguiu para a
fazenda Lavagem, e Lampião desviou-se com os demais para o engenho Tabocal, de
seu Ioiô, levando Félix como guia. Os cangaceiros submeteram os moradores a
vexames, tomaram dinheiro de quem tinha, aplicaram bolos de palmatória em uma
garota. A mocinha apegou-se a Félix Cabral:
– Seu Félis, pur Nossa
Sinhora, nun dexe esse home me batê!...
Seu Félix disse:
– Mĩa fia, eu nun posso fazê nada... eu tamém
tou preso...
As cenas de maus-tratos
repetiram-se na fazenda Pedras, do velho José Cabral. No caminho, os
cangaceiros capturaram Jucundino Calasans, do engenho Recurso, e levaram-no
como refém, juntamente com José Xavier de Andrade
e Renato Sousa. Lampião tomou emprestado um automóvel e rumou para a cidade,
com a cabroeira atrás, a cavalo. Pretendia entrar em Capela em grande estilo,
como da vez anterior. Chegando perto, na localidade Lá Vem Um, mandou parar
o veículo, a fim de esperar os cangaceiros, e despachou um mensageiro, com a
incumbência de informar às autoridades sua intenção de entrar pacificamente na
cidade. Mandou dizer que estava com 50 homens – na verdade eram somente 18.
Os moradores entraram em pânico. Tinha-se
notícia do que acontecera em Queimadas, logo após a passagem do bando por Capela
no ano anterior.
Encontravam-se em Capela uns
soldados vindos de Vila Nova (atual Neópolis), em diligência relacionada com a
Revolução de Outubro. Em Sergipe, a “revolução” era uma coisa mais ou menos
fictícia, pois, a rigor, ninguém sabia do que se tratava, e não havia luta,
apenas perseguição a adversários. O sossego da tropa acabou quando estourou a
notícia de que Lampião estava para chegar. Apesar do apelo da população, o
comandante contrapôs que estava ali para reprimir revoltosos, e não para lutar
com cangaceiros. Num abrir e fechar de olhos, os milicos sumiram.
Dois soldados do
destacamento local estavam na casa do médico Odilon Machado. Encorajados pelo major
Honorino Leal e por um viajante comercial que estava de passagem por Capela,
chamado Josias Mota, que dizia ser aposentado da Marinha, os soldados disseram
que estavam dispostos a impedir a entrada dos cangaceiros, desde que contassem
com o apoio dos civis. Josias e o major mandaram chamar todos os homens que
tivessem armas em
casa. Despacharam de volta o mensageiro: podia dizer a
Lampião que se quisesse entrar, entrasse, mas seria recebido à bala.
Lampião não se mostrou
surpreso com a resposta e apenas disse:
– Ah, entonce, se é assim
qui quere...
Félix Cabral, temendo o
pior, prontificou-se a ir conversar com o intendente, com o delegado, com o
padre.
– Coroné, o sinhô vai mais
nun vorta... – desconfiou Virgulino.
– Sou home de palava,
Capitão! – respondeu Félix. – Se lhe digo qui vou e vorto, vou e vorto!
– Apois vá. Mais fique
sabeno, coroné: se o sinhô nun vortá, eu vou nas suas fazenda, mato seu gado e
toco fogo nas suas cana, arraso tudo!...
Félix Cabral montou no burro
e foi à cidade. Quando começou a expor suas razões, Josias Mota nem quis ouvir
o resto:
– Seu Félix, o sinhô mi
discurpe, mais o sinhô tá preso. Nun sabe qui é crime sê coitero?
Félix se exaltou:
– Eu, preso?! Quem você
pensa qui é?! Vim só dá um recado, e já qui nun quere acordo, vou vortá e dizê
a resposta!...
– Ah, nun vai não...
– Vou, eu dei mĩa palava qui
vortava, e vou cumpri!
– Cum bandido ninguém
sustenta palava, seu Félix!
Enquanto isso, os boatos
corriam soltos na cidade – o coronel Félix Cabral estava preso! Era coiteiro!
Amigo de Lampião de longa data! Lampião ia invadir a cidade para soltar o
amigo! Capela ia pegar fogo! O mundo ia se acabar!
Àquela época era raro o
homem que não tivesse uma arma. Todo fazendeiro tinha um ou vários rifles,
revólveres, garruchas. Os pobres tinham pelo menos uma espingarda de caça.
Naquele momento terrível, com a notícia de que a cidade estava cercada pelos
cangaceiros, o medo virou coragem, até as mulheres se armaram. Josias Mota
organizou a defesa. Pôs atiradores nos telhados e até na torre da igreja de
Nossa Senhora da Purificação.
Enquanto esperavam a volta
de Félix Cabral, os cangaceiros esvaziaram o estoque de bebidas de uma bodega
no Lá Vem Um.
Como desconfiassem de veneno nas bebidas, o dono do boteco era obrigado a beber
primeiro sempre que abria uma nova garrafa. Resultado: foi o primeiro a ficar
bêbado.
E nada de Félix voltar.
Lampião decidiu:
– Nóis vamo dá uns tiro, qui
é pra eles nun dizê qui nóis saiu sem brigá, cum medo.
Volta Seca e Pretão ficaram
tomando conta dos cavalos e do automóvel, e os demais se dirigiram à cidade.
Quando os cangaceiros
apontaram, estourou a fuzilaria. Além dos tiros vindos da cidade, vinham também
tiros da retaguarda, como se os moradores pretendessem cercar o bando. Atiravam
até da torre da igreja. Os cangaceiros espalharam-se em quatro grupos e
começaram a atirar também. Seus alvos principais eram o fundo da casa de Antão
Correia e o oitão da casa do médico Odilon Machado. Uma bala entrou ninguém
sabe por onde e furou o piano, que Odilon tinha comprado por uma fortuna.
Os reféns aproveitaram o
pandemônio e fugiram.
Já estava anoitecendo, e
Lampião percebeu que aquele ataque não fazia sentido. Dois cangaceiros estavam
feridos: Gato e Beija-Flor. Para completar a confusão, os cangaceiros que
tinham ficado na retaguarda tomando conta dos animais não reconheceram os
companheiros e abriram fogo contra eles, sendo preciso pôr os chapéus na boca
dos fuzis e levantá-los acima das ramagens para serem identificados.
Os moradores ouviram um
apito, e num segundo os cangaceiros sumiram. Custava acreditar que o pesadelo
havia passado. Adroaldo Campos (Dudu da Capela), o rábula da cidade, que andava
de muletas por ser aleijado, pegou a corda do badalo do sino e anunciou as
Ave-Marias. Nunca o povo de Capela agradeceu com tanto fervor o amparo de Nossa
Senhora da Purificação."
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Sobre esses fatos, expostos
aqui em apertada síntese, leia os capítulos 109 e 127 de Lampião – a Raposa das Caatingas:





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